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Monday, June 21, 2004
Da extinção dos Homens





"De todos os seres físicos que já existiram, conta-se que o homem foi o mais iluminado que já se viu. Possuidor de livre-arbítrio e fruto de uma evolução milenar, este ser dominou todos os demais de sua época e controlou, como soberano imbatível, todos os recursos de seu  planeta.


Inteligência, destreza e capacidade de disseminar informações entre si parecem ter sido características inatas desta raça. No entanto, indícios há de que sua maior força residia em seu dom de materializar seus desejos, anseios e vontades em realidade. Tal capacidade, segundo registradores de vanguarda, seria o equivalente ao que entendemos como 'sonhar'.


Animais de estatura mediana e de compleição física incompatível com um meio ambiente tão hostil, parece que o ato de sonhar e de tornar estes sonhos em realidade deram, à humanidade, todo um arcabouço psicológico que os compeliu a pensar e agir para resolver problemas que, inicialmente, eram apenas de sobrevivência. Ao que parece, de tanto repetir este trinômio, sonhar-pensar-agir, a humanidade foi capaz de avanços assombrosos.


Registros de tradição oral mostram que esta raça, em pouco mais de 100.000 mil anos, passou de herbívoros fugidios a viajantes espaciais. Especula-se, inclusive, que eles teriam dominado a teconologia de portais estacionários de antimatéria.


Em nível social, estes seres também eram capazes de congregar outros humanos em seus sonhos. Com base nisso, relações duradouras eram estabelecidas e acasalamentos eram permitidos, viabilizando a continuação de sua espécie e, consequentemente,de seu processo evolutivo.


No entanto, algo deu errado. Os registros contam que, em algum momento, a humanidade deixou de sonhar. Rapidamente, seu mundo ficou velho e sem brilho. Sonhos tornaram-se raros, esparsos e de cunho auto-destrutivo. Guerras mesquinhas, frutos de sonhos idem, acabaram por levantar uma última e definitiva sombra sobre seu planeta, outrora chamado Terra.


Gabriel estava lá, então, e viu, com pesar, o Criador chorar ao ver sua jóia mais preciosa esvanecer-se. Ao que parece, Ele, pessoalmente, havia tentado salvá-los inúmeras vezes.


Ainda hoje, os Anjos Primordiais balançam a cabeça ao relembrar estes fatos e observam que, não por acaso, naquele dia fatídico para esta raça, o Sol nunca havia estado tão brilhante em toda sua existência..."




[Ensaio de Diógenes Lima, originalmente escrito em 12 Mar 2003]

Posted at 10:14 pm by diogeneslima

Luís Ricardo - Ojii-chan
July 5, 2004   03:26 PM PDT
 
Como parece não haver registros precisos da derrocada, me arrisco a um palpite de como a humanidade deixou de sonhar, caminhando para seu fatídico desfecho: os sonhos, belos e grandiosos, foram dando lugar aos sonhos medíocres com prazeres palpáveis: alimento, sensualidade, moradia. O homem, que de sobrevivente havia evoluído em sonhador (e daí a conquistador), foi conquistado por seu egoísmo (já que o egoísta só vê a si mesmo) e deixou-se regredir. E assim, na escala inversa, caminhou da humanidade para a animalidade, e depois ao nada. Estaria aí o sentido real das palavras "ao pó reverterás"?
 

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