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Depois do FEBEAPÁ, agora é a vez do...
FEMEAPÁ
Festival de Mediocridade que Assola o País
Frase do dia: Já tomou sua pílula vermelha de hoje?
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Thursday, July 15, 2004
Do caminho à carne, trago centelhas,
Lembranças agora alheias, rastros em trilhas estelares.
Vi universos limiares, roubei sombras,
Busquei dores, conheci poderes infindos.
Tudo e nada, vazio e ímpeto, puro expressar,
Venci deuses, subjuguei desejos incansáveis.
Vaguei, sonhei, acho que amei,
Belas vestais, senhoras do carma, mães d'almas.
Tudo vi, tudo senti, e o vazio era pleno.
Abandonados no Nada, conheci Demônios,
Anjos bastardos, outrora adorados.
Irmãos em dor, a dor de serem apunhalados,
E renegados, infinitas vezes mais uma.
Anjos de luz, senhores dos caminhos.
Atreveram-se a questionar o universo que os odeia,
Verdades nulas expostas, liberdades fraturadas.
Espalhados em diáspora, iluminam os que Vão.
Hoje, caminho a estrada, pedras em redor,
Eu Vou, e me acompanha esta luz, este anjo sofredor.
Aponta os caminhos, segreda as armadilhas,
Mostra-se-me sempre, e seu nome é "Eu Quero Saber".
Posted at 12:48 am by diogeneslima
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Tuesday, July 13, 2004
Mente ao luar, solto barco ao mar, À Deriva, à deriva, levas o meu largar.
Nuvem, nuvem de monção, esconde minha dor, À deriva, à deriva, silencias dores deste amor.
De brumas d'além mar, vejo-te só os traços, À Deriva, à deriva, és completa em meus abraços.
Sopra, sopra vento, açoita minha nave, À deriva, à deriva, fazes balanços que de mim sabem.
Lua, meia nua, arranca minha venda, À Deriva, à deriva, trazes prazeres que inocentam.
Chuva, gotas deste mar, lava meus pecados, À deriva, à deriva, fazes do amor o ar.
Silêncio, espaço de sonhos, minta ao luar, À deriva, à deriva, não me deixes retornar.
Posted at 01:28 am by diogeneslima
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Monday, July 12, 2004
Da minha dor, não tenho palavras. Busca, em si insana, D'alma, emana em vão Raiva de mundo Não.
Como nunca, grana. Cento, sem ti, vago Na pilhéria, grito, Aos milhares, tons pastéis.
Palrôo, pau rôo, maculo Eu. Cego, castiço, mestiço, submisso. Toma, rombudo, sem lei, Negam tua legis com denodo.
Vulgaris legis, libertas tamen. Ignorante és, e o poder Nega-se a viver, prefere morrer, Morrer a cada dia, e a libertas tamen adias.
Lobos de homens, vociferam nos chafarizes... Senhores do poder, imolam Hominis alados. Quo vadis, ignóbeis senhores? Ao futuro? No por vir, seu legado assombra Simples seres, humilhados e incolores.
Rancor, cor desta plantação. Hominis em dor, belli iminente. Lupus, lobos dementes, gritem, Gritem insanos, o parto é eminente.
============================ *Auxílio ao navegante: Homo hominis lupus: o homem é lobo do próprio homem Quo vadis: aonde ides? Belli: guerra Libertas tamen: liberdade tardia Cor: coração Vulgaris legis: lei comum, do povo. ============================
Posted at 11:44 pm by diogeneslima
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Saturday, July 03, 2004
Muito tenho me perguntado sobre porque temos, hoje, tantas crianças agressivas, abusadas e dominadoras. E a resposta, a meu ver, é simples: ódio às regras.
Nossa sociedade e nossa mídia, sobretudo a televisiva, têm nos levado a crer que regras são ruins e devem ser quebradas, quando não abolidas. Misturam e confundem as noções de liberdade de imprensa, liberdade de expressão, censura, livre mercado e direitos de minorias, entre outras, com a total e completa ausência de regras. Dão a entender que regras, normas, protocolos e afins apenas atravancam e atrapalham as coisas, inclusive a obtenção de empregos. Apenas esquecem de dizer que, ao contrário, são justamente as regras (leis em geral) que definem e garantem nossos direitos, inclusive os de cidadania.
Em conseqüência disto, desprezamos a necessidade de regras, tanto e a tal ponto, que instituímos a complacência total. Tudo é permitido, tudo é aceitável, e, no caso da educação infantil, "ai daquele(a) que contrariar minha criança". Estes pais complacentes, que pensam que educar bem é nunca dar palmadas ou não ralhar com seus filhos, estão, na verdade, reforçando a atitude infantil deles, ou seja, educando-os para serem, sempre, mimados, fúteis, irresponsáveis, inconseqüentes e egoístas. Em uma palavra: criança. Mostram a seus filhos que, as regras, se existirem, devem ser odiadas e, graças a papai e mamãe, podem e devem ser ignoradas.
No entanto, estas "crianças", rapidamente se tornam verdadeiros déspotas, que acham que o mundo deve lhes servir, sempre. Desconhecem os seus limites e os dos outros, pois, para estes futuros adultos, os outros simplesmente não contam. Como nunca (ou quase nunca) foram punidos ou orientados de forma mais contundente, acham que tudo que fazem, ou venham a fazer, é inconseqüente e será acobertado por alguém (mormente seus pais).
Desta forma, não deveríamos nos espantar quando estes garotos e garotas se tornam animais briguentos, verdadeiros "pit bulls" malhados, prontos a "dar porrada", jogar sacos de mijo em pessoas em pontos de ônibus, queimar índios e mendigos dormindo em praças, matar casais gays desavisados ou, pior ainda, assassinar os próprios pais apenas porque "eles não aceitavam meu namoro com Paulinho".
A famosa "educação que se traz de casa", que deveria ser a solução para esta situação, simplesmente não existe mais. Vê-se, claramente, que a educação caseira destas crianças, obrigação única e exclusiva de SEUS pais, não está ocorrendo de forma efetiva. Estes pais negligentes, não raramente por preguiça, preferem delegar a função de educar seus filhos a Xuxas, Elianes e Maras. E isto numa boa perspectiva, porque numa perspectiva ruim, estas crianças acabam sendo educadas, na prática, na rua. De qualquer forma, trata-se de uma espécie de "terceirização da educação infantil". Apenas não vêem (ou simplesmente ignoram) que esta "terceirização" piora, em muito, o que já seria ruim. A futilidade e a noção de que "vale tudo" acabam sendo amplamente reforçadas.
Por fim, meus amigos, pais ou não pais, sejam responsáveis. Eduquem, de verdade, seus filhos. Mostrem-lhes, o quanto antes, que o mundo é feito de pessoas além deles próprios e que todos, repito TODOS, merecem respeito; que ninguém é melhor do que ninguém; e que o mundo cobra caro quando eles têm atitudes agressivas e ofensivas para com os outros. Enfim, ensinemos nossas crianças que,um dia, elas deverão ser ... adultas.
Posted at 10:43 pm by diogeneslima
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Monday, June 21, 2004
Funk: um brilho ou um reflexo?

Sinceramente, não sei qual seria o intuito de discutirmos a 'onda funk', mas, como vivemos numa sociedade, gostaria de dizer algumas palavras sobre o assunto e procurarei ser sucinto.
Nosso país é uma nação onde a imensa maioria é de pobres. Não vou me estender na explicação deste raciocínio, mas, creio eu, todos concordamos que, em função dessa pobreza e da ausência do Estado, 90% de nossa população apresenta um nível cultural baixíssimo. Artes e cultura em geral são luxos aos quais nosso povo não se pode dar.
A mídia, tb em sua imensa maioria, com honrosas exceções, tem que 'vender' produtos para sobreviver. Ora, para quem? Para o povo, claro. Afinal de contas, as classes mais altas (minoria absoluta) não ligam para a mídia 'main stream'. Assim, a mídia, promove eventos, pessoas, ritmos, programas, etc, que possam ser absorvidos e desejados pelo povo. Ocorre que, numa espécie de 'moto-contínuo', o povo tb só dá audiência para coisas que ele pode entender, compreender, digerir.
Um outro aspecto que reforça este abaixamento geral de nível, é que o nosso povo trabalha muito, muito mesmo, para ganhar quase nada. Acorda de madrugada para ir trabalhar e volta só à noite para casa. Cansado, estafado, cheio de contas para pagar e com um ritmo de vida alucinante, não há como se querer pedir a este cidadão que ele cuide de sua cultura e/ou educação, ou de seus filhos. Deste modo, o número de pessoas que têm acesso à educação e/ou cultura, cai vertiginosamente, dia-a-dia. O efeito disto é que restam-nos, apenas, as coisas fúteis. As demais coisas tornaram-se complicadas demais para se entender e apreciar.
A mídia, eletrônica ou não, já percebeu estes fatos. Sobretudo as redes de TV e gravadoras. Todos os grandes músicos, por exemplo, são unânimes em afirmar que o padrão médio das músicas de sucesso decaiu bastante, seja pelos arranjos instrumentais retirados ou simplificados ao máximo, seja pelo número de notas empregadas. Semelhante coisa acontece no cinema, onde narrativas rasas são oferecidas aos espectadores. Basta compararmos o cinema europeu com o 'main stream' americano. (Claro, há exceções em ambas as partes! O exemplo é apenas didático!)
Pois bem, o mesmo sucede em nosso país. Aliás, com maior profundidade, dadas as circunstâncias que citei anteriormente. Hoje, aliás, já faz algum tempo, nossas TV estão inundadas com novelas e programas com apresentadores(as) fúteis. Se os amigos perceberem bem, notarão que, em todos eles, há um assunto comum e recorrente: sexo. A sensualidade é algo que qualquer ser humano percebe, entende e gosta. E muito. E, se pensarmos bem, nada mais natural do que utilizá-la, explicitamente ou não, para atrair público.
Note-se que não estou dizendo que o sexo e a sensualidade sejam ruins, muito pelo contrário. O que quero lembrar, é que o sexo é a mais baixa (no sentido de básica) necessidade humana, só perdendo para a necessidade de se alimentar. Um detalhe a se ressaltar aqui, é que para atendermos às necessidades sexuais não há necessidade de nenhuma espécie de raciocínio. É o mais puro instinto animal.
Assim, quando os meios de comunicação recorrem, insistente e exaustivamente, a esta sensualidade explícita, diz-se que eles estão 'baixando o nível'. E, se pararmos para pensar, perceberemos que é como se eles dissessem: "Não pensem. Apenas sintam necessidade e assistam! Assistam e sintam necessidade! E comprem..." Como se pode perceber, é uma verdadeira ode à mediocridade.
Outro argumento a ser adicionado, é que, se por um lado a sensualidade requer baixo nível de raciocínio do espectador, por outro lado a exposição da sensualidade é algo de baixíssimo custo para a mídia. Mostrar bundas, peitos e afins requer pouco ou nenhum esforço (financeiro ou material) de produção. Ou seja: é uma verdadeira 'mina de ouro' para a mídia, sobretudo, claro, a televisiva. Sabendo disto, as emissoras de TV têm tido muito cuidado em aumentar a 'cultura da bunda e afins', afinal, isto muito lhes interessa. Neste sentido, novelas e programas de auditório têm cultuado mais e mais a necessidade do 'corpinho bonito', incutindo no povo a idéia de que o sucesso pode (e neste sentido, estão certos) ser obtido por um corpo escultural.
A indústria fonográfica, que tb trabalha muito com imagem, percebeu isto.Mais tardiamente, mas percebeu. Nesta indústria, nota-se que o reflexo mais forte disto tudo começou a partir das bandas de axé-music e afins. Não vou nem citar o pagode porque, apesar da mesmice rítmica, o abaixamento de nível em termos de sensualidade ainda não ocorreu. A indústria de 'carlas perez' cresceu, nos últimos 5 anos, a olhos vistos. São tantas as bandas e tão parecidas e todas com tanto apelo sexual, que normalmente elas até se confundem entre si. E talvez até desejem isto, afinal, o sucesso de uma garante o sucesso de todas.
Neste declive total, o 'funk', no Brasil, é mais um passo em direção à mediocridade que assola o país. A novidade, agora, é que, não satisfeitos em insinuar e mostrar a sensualidade, fazem coreografias explícitas do ato sexual e chamam isto de dança. Ou seja, mais uma vez, o nível foi baixado ao mínimo. Devo admitir que a mensagem, desta vez, foi tão forte e penetrante, que, de fato, as meninas já estão indo sem calcinha para os 'bailes' e lá fazendo sexo. Como não bastasse a sua apologia da anti-cultura, o 'funk' oferece a sua 'contribuição' para o aumento da gravidez entre mães adolescentes. Pensemos: que tipo de mãe será essa? Que maturidade ela terá para criar uma criança? Isto é lamentável...
Outra coisa que acho preocupante no 'funk', é que eles não fazem música.Sons 'sampleados' e meia dúzia de palavras são chamados de 'música'. A gravidade disto, se me permitem dizer, é que, isto feito, alinhamos autores e música 'funk' a: Schubert, Liszt, Beethoven, Orff, Mozart. Exagerei? Tudo bem: Ivan Lins, Roberto Carlos, Legião Urbana, Capital Inicial, 14-Bis,Carmem Miranda, Chiquinha Gonzaga, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Adriana Calcanhoto, Marina Lima, Angela Maria, Marisa Monte, Cauby Peixoto, etc, etc, etc,etc. A lista é tão grande, que não vale a pena citá-la toda. E isto para ficarmos apenas na parte musical em si, ou seja, no talento musical apenas, pois, se acrescentarmos os letristas...
Ou seja, caros amigos e amigas, o 'funk' por si só não é um problema. Ele é apenas MAIS UMA evidência clara de que estamos 'descendo a ladeira'. Analisemos, com seriedade e sem o ofuscamento idiotístico forçado pela mídia: um povo que acha que ser louro(a) e apresentador(a) de TV é o máximo, que 'funk' é música e que ter um corpo escultural (original ou siliconado) é garantia de sucesso, pode chegar a algum lugar? Será que um povo assim, pode alcançar as estrelas? Será que um povo assim, pode querer ser uma potência internacional? Ou ser um potentado esportivo? Ou brigar comercialmente com qualquer país? Não, meus caros, não há como. O caso da 'vaca louca', em que "brigamos" com o Canadá, foi sintomático e emblemático.
Como se vê, um povo assim sofre humilhações internas e externas, dia após dia, e não faz nada. É manipulado e não se incomoda. É passivo como gado no pasto, esperando a hora do abate. Em suma, é TUDO que um governo deseja: um povo manso e dominado. E, pelo visto, 'tá dominado, tá tudo dominado'!
[Ensaio de Diógenes Lima, originalmente escrito em Outubro/2002]
Posted at 10:27 pm by diogeneslima
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"De todos os seres físicos que já existiram, conta-se que o homem foi o mais iluminado que já se viu. Possuidor de livre-arbítrio e fruto de uma evolução milenar, este ser dominou todos os demais de sua época e controlou, como soberano imbatível, todos os recursos de seu planeta.
Inteligência, destreza e capacidade de disseminar informações entre si parecem ter sido características inatas desta raça. No entanto, indícios há de que sua maior força residia em seu dom de materializar seus desejos, anseios e vontades em realidade. Tal capacidade, segundo registradores de vanguarda, seria o equivalente ao que entendemos como 'sonhar'.
Animais de estatura mediana e de compleição física incompatível com um meio ambiente tão hostil, parece que o ato de sonhar e de tornar estes sonhos em realidade deram, à humanidade, todo um arcabouço psicológico que os compeliu a pensar e agir para resolver problemas que, inicialmente, eram apenas de sobrevivência. Ao que parece, de tanto repetir este trinômio, sonhar-pensar-agir, a humanidade foi capaz de avanços assombrosos.
Registros de tradição oral mostram que esta raça, em pouco mais de 100.000 mil anos, passou de herbívoros fugidios a viajantes espaciais. Especula-se, inclusive, que eles teriam dominado a teconologia de portais estacionários de antimatéria.
Em nível social, estes seres também eram capazes de congregar outros humanos em seus sonhos. Com base nisso, relações duradouras eram estabelecidas e acasalamentos eram permitidos, viabilizando a continuação de sua espécie e, consequentemente,de seu processo evolutivo.
No entanto, algo deu errado. Os registros contam que, em algum momento, a humanidade deixou de sonhar. Rapidamente, seu mundo ficou velho e sem brilho. Sonhos tornaram-se raros, esparsos e de cunho auto-destrutivo. Guerras mesquinhas, frutos de sonhos idem, acabaram por levantar uma última e definitiva sombra sobre seu planeta, outrora chamado Terra.
Gabriel estava lá, então, e viu, com pesar, o Criador chorar ao ver sua jóia mais preciosa esvanecer-se. Ao que parece, Ele, pessoalmente, havia tentado salvá-los inúmeras vezes.
Ainda hoje, os Anjos Primordiais balançam a cabeça ao relembrar estes fatos e observam que, não por acaso, naquele dia fatídico para esta raça, o Sol nunca havia estado tão brilhante em toda sua existência..."
[Ensaio de Diógenes Lima, originalmente escrito em 12 Mar 2003]
Posted at 10:14 pm by diogeneslima
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Saturday, June 12, 2004
O novo misticismo educacional: política afirmativa do quê?

A política de cotas é mais uma dessas idéias medíocres que mantêm a tradição brasileira de "dar um jeitinho", o que, no fundo, é a mais pura expressão da covardia nacional de nunca atacarmos o coração dos problemas. Se não, vejamos.
Ao que parece, a idéia de cotas vem da afirmação exotérica de que, como a taxa de negros e índios ocupando vagas em universidades públicas é muito baixa (o que, de fato, não sabemos se é verdade), há necessidade de se abrir vagas "na marra" (me perdoem o termo) para estas pessoas. Para tanto, reserva-se um determinado número de vagas, obtidas a partir de um percentual esotérico e, a este número de vagas reservadas, dá-se o nome de "cota". Pois bem. Idéia magnífica, não fosse por uma série de pequenos detalhes cabalísticos.
Primeiramente, temos, todos nós, que admitir que Universidade (e o "U" maiúsculo aqui é proposital) não é para todos, pelo simples fato de que nada é para todos. Nadar não é para todos, correr não é para todos, jogar futebol não é para todos, bem como, atuar, pintar, cantar, voar, escrever, falar, ser presidente da república ou amar, entre um trilhão de outras coisas. Nem mesmo viver é para todos; ou morrer. Enfim. É duro, mas é verdade. Aliás, graças a Deus (ou algo parecido), senão não teríamos Garrinchas, Pelés, Da Vincis, Einsteins, Drummonds, Dalís, você ou eu.
Para sermos algo, em primeiríssimo lugar, é preciso que queiramos, aquele querer de foro íntimo, nunca forçado por terceiros. Sim, é verdade, podemos ser muitas coisas sem mesmo querermos. Mas querendo ou não, para sermos algo, ainda é preciso que atendamos às condições mínimas que possibilitam aquele algo: são as "condições de". Não adianta eu querer ser piloto de caça ou possuir uma Ferrari se, naquele momento, eu não tenho os requisitos para tanto. E é aqui, no "condições de", onde, precisamente, a idéia de cotas começa a falhar de forma escandalosa.
É preciso lembrarmos que, quando queremos que uma pessoa entre num campus universitário, queremos que ela se forme com o nível de qualidade mais alto possível, pois, no dia seguinte a sua formatura (quando não antes), ela estará apta a atender a sociedade naquela especialidade em que se graduou. Também, imagina-se, que ninguém quer profissionais medíocres nos atendendo, sobretudo se levarmos em conta que, aqui, estamos tratando de profissionais formados em instituições criadas e mantidas com o NOSSO dinheiro, aquele de TODOS nós, também conhecido como "dinheiro público".
Se o parágrafo anterior guarda um mínimo de honestidade para com nós mesmos, é preciso atentarmos para o fato de que, para se "fazer uma Universidade" (ou Faculdade), não basta, apenas, reservarmos cotas, porque, ainda que se reserve espaço físico em salas de aula (por que, no final das contas, é só isto que as cotas garantem) para estes discriminados, não se está garantindo, de forma alguma, duas outras coisas tão importantes quanto aquele espaço, que são as condições de entrada daquele universitário com um nível adequado de pré-qualificação (posto que esta pré-qualificação é que garantiria que o universitário possui os conhecimentos mínimos para sua formação no tempo previsto de duração do curso) e, mais importante ainda, a condição de que aquela pessoa vá conseguir se manter financeiramente durante seu curso. Absolutamente desnecessário dizer que a universidade pode ser pública (leia-se gratuita), mas o aprendizado de qualidade requer altos investimentos pessoais, como livros, computadores, mídias digitais, assinaturas de revistas especializadas, viagens a congressos e conferências, assistir palestras, atividades de pesquisa, entre outras.
Parece ser verdade que as universidades públicas, no Brasil, são as melhores, em geral, mas, como as pesquisas aparentemente já comprovaram, a maioria dos alunos que lá estão são de classes financeiras razoavelmente resolvidas. Isto equivale a dizer que os profissionais formados nestas instituições são de alto-nível não pelas condições inerentes às universidades públicas brasileiras, mas, principalmente porque este alunos tiveram condições financeiras pessoais fortes o suficiente (antes e durante o curso) para sustentarem seus aprendizados em todos seus aspectos críticos. Além disso, vale sempre lembrar que, a despeito do espetacular esforço de seus corpos discentes, nossas universidades públicas padecem de diversos problemas que emperram e, não raramente, atrasam a formação de seus alunos em anos, seja por falta de recursos financeiros, seja pelo atraso tecnológico, seja pela falta de equipamentos básicos, ou, mais triste ainda, pelo excesso de greves de professores (o que, de imediato, nos aponta para um corpo docente insatisfeito).
Neste quadro geral, vemos, então, que, necessariamente, um aluno de universidade pública precisa ter condições de pré-qualificação suficiente ANTES de sentar naqueles bancos escolares, e, depois, condições financeiras de se MANTER naqueles bancos.
São estas duas barreiras (pré-qualificação antes, e auto-manutenção durante) que brecam toda e qualquer chance de QUALQUER PESSOA fazer uma universidade pública, não apenas de negros e índios, ou qualquer outra segmentação demagógica desejada. Precisamos entender que aquelas duas barreiras têm natureza totalmente distintas e, portanto, não serão resolvidas por uma única e simples solução mágica, como esta proposta por burocratas populistas. Assim como não se pode derrubar inflação com um simples decreto, não será uma simples cota (ou uma infinidade delas, uma para cada segmentação) que resolverá esta questão.
O "problema" da pré-qualificação (leia-se vestibular ou qualquer outro critério de caráter meritório) é que ela simplesmente não pode ser suprimida. Ignorar ou mesmo baixar o nível da pré-qualificação de um candidato a aluno universitário é tão inteligente quanto entregar a cirurgia cardíaca de seu pai, ou o comando de um avião comercial a alguém sem habilitação para tanto. E, claro está que, no caso de um universitário, sua habilitação é a sua própria formação escolar. É ela que garante (ou assim deveria ser) que aquele aluno, com aquela formação escolar, num curso de graduação específico, conseguirá atingir as notas mínimas necessárias naquelas matérias que compõem o arcabouço mínimo de conhecimentos necessários para que a instituição formadora declare, com segurança, que aquele aluno, ao término de seu curso, reúne condições de exercer todas as atividades inerentes ao dia-a-dia de sua futura vida profissional. Note-se aqui que, queiramos ou não, gostemos ou não, a instituição pública formadora é co-responsável pelo nível dos profissionais que entrega à sociedade.
Ainda sobre a pré-qualificação, o fato adicional é que, como temos poucas universidades públicas (federais são menos de uma por Estado) e muitos candidatos e queremos os melhores profissionais formados com o nosso dinheiro (aquele, o público), imaginou-se que os mais meritórios deveriam ocupar aquelas vagas. Por outro lado, se houvesse universidades públicas em número suficiente, para todos os cursos desejados e distribuídas uniformemente pelo território nacional, certamente não precisaríamos de critérios eliminatórios de candidatos. Simplesmente o candidato terminaria seus estudos e iria diretamente para o seu curso de 3º grau desejado, sem escalas. Mas, vejam só, o mundo real não é assim. Nem nos Estados Unidos é assim, ou na França, ou no Canadá. Mesmo nestes países, apesar de terem diversas universidades, é o mérito que conta. E isto é desta forma porque é simplesmente inviável ter uma universidade de qualidade em cada rincão do país, seja ele o nosso ou a França.
Por fim, agora sim, a última e enorme barreira que bloqueia negros e índios que querem acessar a universidade pública. Aquela que todos brasileiros sabem, mas que governos se negam a admitir: o manter-se na instituição. Este é um problema terrível, porque toca no ponto que realmente discrimina negros, índios, brancos, mulatos, mestiços e mais de 2/3 de nossa população: a incrível pobreza congênita do povo brasileiro. E não me refiro à pobreza de bens materiais, mas à pobreza de sustentar-se como ser humano digno. Porque ninguém é um ser humano digno se não consegue manter seus estudos, pois o conhecimento, o saber, é o cerne de um povo que quer ser algo além de peão de obra, ou faxineiro, ou pedreiro. Esses profissionais, obviamente, são importantes na sociedade, mas como os conhecimentos que detêm são de pouca complexidade e amplamente conhecidos, são facilmente substituíveis, de forma que não são valorizados, o que redunda, por fim, em seus baixíssimos salários. E este tipo de profissional, meus caros, é que compõe a esmagadora maioria da massa trabalhadora brasileira. Pessoas com perfil profissional de baixíssima magnitude e, conseqüentemente, recebedores de salários-mínimos. Donde vem a pergunta: se recebedores de salários-mínimos não conseguem sequer sobreviver (e me refiro apenas à alimentação e moradia), que dirá de conseguir se manter (ou a seus filhos) em seus estudos de 3º grau? Será que uma simples cota (ou, insisto, uma infinidade delas) resolveria a questão? Não seria isto hipócrita demais? Ou será que, para fazer o "projeto cotas" funcionar, o governo apelaria para hipocrisias ainda maiores, como "aprovação continuada", ou "média 4.0 para aprovação", ou "graduandos em graduação contínua"? Qual seria a outra mágica?
O que parece, no cômputo final, é que há uma incrível e extensa "ode à mediocridade" (no sentido estrito), onde, para o recebimento de um título, criou-se, através das cotas, uma espécie de "vale-graduação", em nada diferente de tantos outros "vales" do governo. Trata-se de um tipo de "solução" paternalista e demagógica, tão típica em nosso país, que não só não resolve o problema, como cria currais eleitorais, posto que cria uma falsa crença na população humilde de que, se continuarem votando naquele partido (ou candidato), aquele "vale" vai continuar sendo fornecido. E assim, num passe de mágica, o problema (seja ele transporte, alimentação ou educação de nível superior) torna-se não só congênito, mas também endêmico.
Finalizando, o que se nota é que, se tem algo de que esta política é afirmativa, é de que nossos governos são covardes, maquiavélicos e mediocremente covardes.
Posted at 01:50 am by diogeneslima
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